Viagem sofrida
Um sonho sofrido de viver com o sabor da rapadura
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A menina nada mais esperava daquela manhã. Vinha de mãos dadas com a mãe, que trazia ao colo outro irmão, mais novo. O neném chorava e, em vão, a mulher lhe tapava a boca com uma chupeta imunda, presa a um trapo. E a menina ali, parada, observando a cena, ao mesmo tempo em que vagava os olhos curiosos pelas pessoas em volta.
Continuaram a marcha.
– Vem, menina, se apressa.
E mais a garotinha apertava o passo. O peso dos sapatos, maiores que seus pés, traziam um severo incômodo. Como ela sentia tudo estranho e hostil naquela cidade e naquela manhã. Lembrava-se a menina que, na noite anterior, ela, a mãe e o irmãozinho haviam se despedido, na rodoviária, da mulher que lhes dera abrigo por alguns meses.
– Você mande notícias, viu? E vá a este endereço, o Sandoval vai lhe prestar toda a ajuda de que precise.
E foram. Passaram a noite toda no interior do ônibus, onde o corpo da menina experimentara alguns poucos momentos de descanso. Depois, era o cheiro estranho do veículo, nauseante, morno. Eram os solavancos da estrada e a ânsia de vômito que, às vezes, se confundia com a fome, e aquela sensação lhe fazia subir um tremendo vazio no peito.
Chegaram à cidade ainda de manhãzinha. A mãe passou numa banca e comprou um jornal. Era importante conferir a data e, se Sandoval não fosse prestante, havia de encontrar alguma coisa nos classificados.
A rua era comprida e larga, muito maior do que a menina já tinha visto em sua cidade natal.
– Anda, moleca. Apressa o passo – ralhava a mãe, furiosa – é ali naquela rua, tenho certeza.
Aquele trio improvável parou à frente de uma casa comercial. Modesta, mas bem sortida.
A mulher chegou perto de onde, atrás do velho balcão de madeira, um homem de uns 50 anos embrulhava as compras de uma velhinha que esperava trazendo já algumas coisas numa sacola. E o homem enrolava o queijo no papel áspero e pardacento. Quando cortou o papel na peça de ferro que compunha o suporte em que se apoiava o grande rolo, um arrepio de aflição percorreu o corpo da menina.
– Já falo com a senhora, disse o homem, secamente.
Ali esperaram por mais alguns instantes quando o homem virou-se para eles:
– A senhora que é a prima de Matilde? Sou o Sandoval.
– Sim, senhor, ela mandou esta carta, disse a mulher passando-lhe um envelope.
Ele abriu-o e leu, por um minuto ou pouco mais, o seu conteúdo. Estava circunspecto, mão no queixo, cenho franzido.
– Então, minha senhora, não vai dar não. Eu não preciso de ninguém aqui pra ajudar.
As palavras haviam tingido de desolação o sofrido e sulcado rosto da mulher que, se mal tivesse completado os 30, aparentava ter bem mais de 40 anos.
Não havia como descrever o olhar de sofrida angústia que brotou de suas feições. Não sabia direito o que dizia a carta. Diversas vezes, tendo-a em mãos durante a viagem, pensou num meio de abri-la antes de entregar a Sandoval. Mas não, sua moral não o permitia. E, ademais, era impossível passar, depois, o envelope por inviolado. Antes que amassasse demais o papel, guardou-a e permaneceu em silêncio.
Mas, ainda que não houvesse lido, imaginava que sua amiga dirigisse a Sandoval um pedido de caridade, pedido de socorro, para que lhe achasse alguma tarefa a desempenhar. Assim, poderia ter um teto por sobre si mesma e seus filhos.
Vários minutos de silêncio depois, ela virou-se de costas para o balcão, atrás do qual o dono do estabelecimento já voltara a se mover, organizando itens, limpando daqui e dali.
O filho mais novo havia dormido depois de choramingar um pouco. A menina, em riste, observava alguma coisa guardada na prateleira atrás o balcão.
Era uma pequena pilha de rapaduras, envolvidas em papel-manteiga. A menina adivinhava os adocicados tabletes pois já os tinha visto muitas vezes na cidadezinha de onde saíra. Lembrou-se da avó que, em época de São João, cavava uma grande moranga, recheava-lhe com a polpa misturada a pedaços generosos de rapadura, deitava-lhe uns cravos da índia e uns paus de canela e punha tudo a assar, por horas a fio, enterrado num buraco sobre o qual colocava-se brasa ardente. Horas depois, era tornar a abrir o buraco no chão e desenterrar o fruto, que, fumegante, proporcionava a quem o experimentasse a sensação fibrosa de sua polpa, que trazia algo de adocicado e terroso, misturado ao aroma da canela e do cravo e o caldo dos nacos de rapadura que derretiam e traziam uma sensação de densa umidade na boca.
Ela ficou ali, admirada de ver juntas tantas rapaduras, e até passou-lhe pela cabeça pedir uma ao moço, ou implorar para que sua mãe comprasse.
Mas já adivinhava a negativa ríspida da mulher e até quis poupá-la, pois notava como estava exausta e desesperada observando o comportamento da coitada sob a ótica de uma maturidade impressionante, que lhe parecia haver chegado nas últimas horas.
Ainda desanimada, a mulher balbuciou:
– Não dá nem para o senhor me arrumar um servicinho por hoje? Faço qualquer coisa, só pra ter o que comer com meus filhos.
– Não precisa. Vou arrumar alguma coisa para a senhora comer com as suas crianças. Mas, infelizmente, não posso ajudar mais do que isso.
Sentaram-se à mesa ali próxima, enquanto Sandoval dava alguma ordem a um ajudante que veio do interior da cozinha.
A menina continuava olhando fixamente a prateleira.
Vieram alguns pães com ovos fritos, uma jarra de água gelada e três linguiças.
Sandoval, observando a cena, intuiu o interesse da menina em algo atrás do balcão.
– Você quer alguma coisa, menina?
Ela, subitamente, olhou para a mãe, como a buscar uma aprovação ou uma deixa qualquer para falar da rapadura. Mas a mulher entretinha-se em picar a linguiça em pequenos pedaços, dando-lhes, com miolo de pão, para o filho mais novo que mastigava aquela iguaria com interesse.
A menina, tímida, nem olhou mais para o homem, torcendo para que saíssem logo daquele lugar.
Lá fora, o sol castigava perpendicularmente as calçadas e as portas do estabelecimento. A cabeça da menina doía, e ela sonhava acordada com um ambiente acolhedor e calmo, onde pudesse tirar os sapatos e descansar. Talvez molhar os pés no regato de água gelada em sua cidadezinha. Tudo era bem diferente do que vira no ônibus à noite e naquele local.
Ainda mais ela apertava os olhos e procurava sentir de novo o sabor da rapadura, úmida a descer-lhe pela garganta e, depois, prendia a sensação em sua pequena boca infantil, de tão poucas memórias.
Dias difíceis se avizinhavam daquele pobre grupo. O ar da tarde se fazia mais pesado. Ainda mais hostil era a cidade desconhecida lá fora.
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Daniel Marchi é autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente através do e-mail danielmarchiadv@gmail.com
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