Guará
As quase amigas e o clone do relógio de parede
Publicado
em
Analice e Judite já se conheciam há tempos, apesar de nunca terem sido tão próximas. Tinham lá seus laços, que, no entanto, poderiam ser facilmente desfeitos. Entretanto, talvez por aparências e certas conveniências, as duas preferiam a harmonia à discórdia.
Foi por descuido que a primeira foi bater à porta da segunda em um domingo, no Guará. Não muito cedo, mas o suficiente para ter a dúvida ser a vizinha estava ou não acordada. Seja como for, Analice arriscou e, por sorte, Judite atendeu com um sorriso no lindo rosto trigueiro.
— Mulher, você por aqui? Que bicho te mordeu?
— Ah, Judite, você acredita que me esqueci de comprar café?
— Pois entre, que faço questão que você tome comigo.
— Não precisa, amiga.
— Pois deixe de bobagem, que a água já tá no fogo.
Enquanto a anfitriã foi para cozinha, Analice observou o aconchegante apartamento. Não tardou, notou o belo relógio de parede. Que coincidência! Ela se aproximou e, com uma das mãos, o tocou, justamente quando Judite apareceu com a bandeja, duas xícaras, o bule de café e uma cesta de biscoitos adocicados.
— Lindo, né?
— O quê?
— O meu relógio.
— Ah, sim! Muito lindo!
— Você quer o seu café com açúcar ou adoçante?
— Adoçante.
— Ainda bem, pois não tenho mais açúcar em casa.
— A propósito, Judite…
— Diga.
— Tenho um relógio igualzinho ao seu.
— Jura?
— Pois é!
— Que coincidência!
— O meu ganhei do Júlio.
— Aquele seu ex-namorado?
— Aquele mesmo! Um traste!
— Sério?
— Seriíssimo!
— Pelo menos ele parece ter bom gosto para presentes.
— É verdade.
— Prove esses biscoitos. São doces, mas não têm açúcar.
— Obrigada. Mas sabe o que me intriga.
— O quê?
— É que esse seu relógio é igualzinho ao meu.
— E daí?
— Daí que me veio um pensamento aqui.
— Qual?
— Por acaso você saiu com o Júlio?
— Tá doida?
— Por que estaria?
— Não suporto homem que usa perfume barato.
Analice, ainda não convencida, instigou a amiga.
— Então, Judite, quem te deu o relógio?
— Ninguém.
— Como assim?
— Ué, como assim o quê?
— Hum… Então, você o comprou?
— Tá maluca, mulher? Você sabe quanto custa um relógio desses?
— Hum… Não, mas deve ser bem caro.
— Uma fortuna! Mais de cinco mil.
— Tudo isso?
— Sim.
— E como foi que você o conseguiu?
— Ah, isso foi fácil.
— Como assim?
— Eu o roubei.
— Roubou?
— Sim. Aproveitei que ninguém estava vendo, e o meti dentro da sacola e saí da loja.
— Hum! Pelo menos, o meu foi um presente e não fruto de um crime.
— E qual a diferença?
— Qual a diferença? Ah, tem muita diferença!
— Tem nada!
— Tem sim! E muita!
— O relógio não tá aí?
— Hum!
— E não é igualzinho ao seu?
— Hum!
— Então?
— Mas você cometeu um crime!
— Amiga, deixa de bobagem! Apenas utilizei outro método de aquisição. E a propósito…
— O quê?
— Que tal o café?
…………………………….
Eduardo Martínez é autor do livro 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’
Compre aqui
https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho
