Frankenstein (Parte II)
A criação do monstro como analogia à Obra Alquímica

Para entendermos melhor a inspiração para a execução da obra de Frankenstein é necessário rever alguns conceitos alquímicos para a construção do Homúnculus. Esse ser artificial é descrito em textos alquímicos, aparece em diferentes tradições esotéricas, principalmente na obra de Paracelso (1493–1541) e em textos posteriores influenciados por ele. Como todo processo alquímico existem etapas a serem cumpridas, como uma receita. São necessárias a preparação da matéria prima, uma incubação hermética, uma alimentação para um crescimento adequado, educação e aperfeiçoamento das habilidades requeridas pelo criador e a opção de dois caminhos: a integração às funções designadas pelo seu criador ou a insubordinação e independência do Homúnculus.
De acordo com Paracelso, a matéria-prima para a sua criação é variada de acordo com cada autor, para ele a matéria prima seria o sêmen humano depositado em um frasco hermeticamente fechado em um meio nutritivo adequado, que alguns textos mencionam como sangue ou elementos extraídos do útero feminino.
Esse frasco também é conhecido como “matriz artificial”. A seguir esse frasco, com a matriz artificial, era enterrado em esterco de cavalo ou mantido em uma temperatura constante semelhante à do corpo humano. Essa etapa, conhecida por Incubação Hermética, representa a gestação artificial refletindo a crença de que o calor e a umidade eram essenciais para o desenvolvimento da vida. Por 40 dias tínhamos a fase de alimentação e crescimento, caso tudo corresse bem um ser translucido começaria a se formar.
A alimentação consiste em leite ou sangue humanos e fluidos vitais para garantir força e consciência. Uma vez dado certo, o Homúnculus seria treinado e instruído em artes alquímicas e esotéricas resultando em um servo espiritual ou um guardião de segredos ocultos ou ele poderia crescer e adquirir poderes mágicos, como prever o futuro ou realizar transformações materiais. Ao final, o alquimista poderia mantê-lo como seu assistente.
Outras versões dessa lenda afirmam que o Homúnculus poderia se tornar independente e até se rebelar contra seu criador, tornando-se uma entidade autônoma. É nesse ponto que a criatura do Dr. Viktor alcançará. A independência e a “liberdade”. O conceito do Homúnculus pode ser interpretado de diversas formas, representando a transmutação e a criação do homem prefeito, ou seja, a Pedra Filosofal. Essa idéia pode estar ligada à gestação da alma iluminada dentro do alquimista. Se fizermos um paralelo com Frankenstein podemos dizer que assim como Dr. Victor Frankenstein buscava criar vida a partir da matéria morta, o Homúnculus representa o desejo de dominar os segredos da criação.
Isso posto, voltemos à criação da criatura. Como já foi dito, a construção da criatura remete ao conceito alquímico de decomposição e recomposição, tal qual na Putrefactio e na criação do Homúnculus. Adicione a eletricidade como força vital e voltamos à ideia de um “Fogo Filosofal” moderno, capaz de animar a matéria inerte. Essa criação pode ser interpretada como uma analogia direta à Grande Obra Alquímica, a jornada simbólica e prática dos alquimistas na busca pela transmutação e aperfeiçoamento da matéria. Esse processo, dividido em estágios distintos, reflete tanto a experiência de Victor Frankenstein ao criar seu ser artificial quanto os temas mais profundos da narrativa de Mary Shelley.
A partir daqui apresentarei esses estágios com ênfase na proposta de Frankenstein e sua autora. Já sabemos que a alquimia tradicional divide a transmutação em quatro etapas principais, observe as ligações fortes com o trabalho de Frankenstein. A etapa inicial é Nigredo -Putrefactio e Dissolutio – que representa a morte da matéria prima, um estágio de escuridão e decomposição antes da regeneração.
Victor Frankenstein inicia sua jornada ao explorar cemitérios e salas de dissecação, recolhendo partes de cadáveres para montar e compor seu experimento. Essa fase representa um mergulho na corrupção da carne e na morte, um pré-requisito para a criação de algo novo. A etapa sequencial é Albedo – Purificatio et Illuminatio – simbolizando a purificação da matéria, onde ocorre a separação entre os elementos impuros e sua essência é refinada. Na jornada de Frankenstein, esse estágio acontece quando ele decide se afastar do mundo exterior e se isola em seus estudos científicos, buscando a chave da vida em meio ao conhecimento oculto e à experimentação.
Seu laboratório é o seu santuário, seu Athanor, o forno alquímico, onde ele tenta purificar a matéria morta para infundir-lhe vida. Caso as etapas anteriores tenham dado sucesso, temos Citrinitas – Illuminatio et Scientia -, fase em que a matéria começa a se iluminar e alcança um novo patamar de existência. Nesse ponto, o alquimista deveria enxergar o resultado de seu trabalho e perceber que ainda não atingiu a perfeição. É quando Viktor grita, “está viva!”.
A eletricidade (símbolo da centelha vital) passa a ser o catalisador, completando a transformação. Porém, tal qual a alquimia, ainda não ocorreu a finalização. A criação está inacabada, imperfeita! Para que uma obra seja considerada pronta e perfeita na alquimia qualquer experimento deve alcançar o estágio final. Rubedo – Conclusio et Transformatio – marca a transmutação definitiva e a obtenção da Pedra Filosofal. Simboliza a integração entre opostos e a obtenção da sabedoria suprema. Frankenstein falha ao não alcançar esse estágio.
Como toda experiência que não atinge seus objetivos, o monstro torna-se um ser rejeitado e trágico. O próprio Dr. Viktor, ao invés de alcançar a iluminação, mergulha na autodestruição. Sua recusa em aceitar a responsabilidade pela criação leva ao caos, ao sofrimento e, por fim, à sua ruína.
Um dos objetivos máximos, senão o único, da alquimia é a obtenção da Pedra Filosofal que simboliza a perfeição sobre o domínio da matéria. Dr. Viktor não obtém sucesso, fracassa parcialmente. Mas, fracassa. Para alguns, o fracasso é um excelente mestre, nos ensina a desenvolver a humildade, a perseverança e a buscar caminhos alternativos. Ou seja, aprender com o fracasso pode nos levar ao sucesso. Essa não é a posição de Frankenstein, cego pelo arrogância continua a insistir que sua “criação” está terminada. Porém, ao se mostrar imperfeita é abandonada. Seu monstro não é o produto da realização de um ciclo alquímico perfeito, mas um produto imperfeito e disforme.
Quando isso acontece nós podemos dizer que ao invés de se chegar ao Rubedo (etapa vermelha), nós voltamos ao Nigredo (etapa da putrefação). Alquimistas são humanos e a arrogância e a precipitação fazem parte das “impurezas” que se buscam remover durante a jornada alquímica. Em verdade, para o alquimista, não é tão importante o que eu crio, mas sim o quanto essa jornada me transmuta. Ao tentar controlar os processos inerentes ao viver e morrer, Dr. Viktor falha! Falha ao não compreender as implicações espirituais de seus atos! Na verdadeira alquimia, o Opus Magnum é exatamente isso, ele não é apenas uma transformação da matéria, mas também do próprio alquimista.
Para se alcançar o êxito temos que desenvolver paciência, equilíbrio e compreensão espiritual, pois transmutar chumbo em ouro é também elevar a alma do alquimista. Ao não passar por essa etapa, ou não a conseguir, Dr. Viktor não atinge esse estado de transmutação interna. Tal qual um pai abandonando seu filho imperfeito, ignorando suas responsabilidades como pai, ele ignora sua responsabilidade como criador rejeitando o “filho” ao invés de aceitá-lo e guiá-lo. E aí se instala seu fracasso, na recusa de integrar a sombra, de compreender o processo alquímico em sua totalidade. Por isso, ao invés de atingir a iluminação, ele é condenado à perdição.
Podemos relacionar o romance de Mary Shelley, Frankenstein, como uma tentativa de realizar a Grande Obra sem compreender seus verdadeiros princípios. Por toda sua história ele emite sinais que refletem de alerta alquímico: a busca pelo domínio sobre a natureza, sem responsabilidade e sem transformação interior, leva à ruína. Victor Frankenstein não se torna um mestre da vida, ele se torna um novo Prometeu acorrentado, punido por desafiar os mistérios divinos.
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Marco Mammoli é Mestre Conselheiro do Colégio dos Magos e Sacerdotisas.
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