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Guará

As quase amigas e o clone do relógio de parede

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Produção Irene Araújo

Analice e Judite já se conheciam há tempos, apesar de nunca terem sido tão próximas. Tinham lá seus laços, que, no entanto, poderiam ser facilmente desfeitos. Entretanto, talvez por aparências e certas conveniências, as duas preferiam a harmonia à discórdia.

Foi por descuido que a primeira foi bater à porta da segunda em um domingo, no Guará. Não muito cedo, mas o suficiente para ter a dúvida ser a vizinha estava ou não acordada. Seja como for, Analice arriscou e, por sorte, Judite atendeu com um sorriso no lindo rosto trigueiro.

— Mulher, você por aqui? Que bicho te mordeu?

— Ah, Judite, você acredita que me esqueci de comprar café?

— Pois entre, que faço questão que você tome comigo.

— Não precisa, amiga.

— Pois deixe de bobagem, que a água já tá no fogo.

Enquanto a anfitriã foi para cozinha, Analice observou o aconchegante apartamento. Não tardou, notou o belo relógio de parede. Que coincidência! Ela se aproximou e, com uma das mãos, o tocou, justamente quando Judite apareceu com a bandeja, duas xícaras, o bule de café e uma cesta de biscoitos adocicados.

— Lindo, né?

— O quê?

— O meu relógio.

— Ah, sim! Muito lindo!

— Você quer o seu café com açúcar ou adoçante?

— Adoçante.

— Ainda bem, pois não tenho mais açúcar em casa.

— A propósito, Judite…

— Diga.

— Tenho um relógio igualzinho ao seu.

— Jura?

— Pois é!

— Que coincidência!

— O meu ganhei do Júlio.

— Aquele seu ex-namorado?

— Aquele mesmo! Um traste!

— Sério?

— Seriíssimo!

— Pelo menos ele parece ter bom gosto para presentes.

— É verdade.

— Prove esses biscoitos. São doces, mas não têm açúcar.

— Obrigada. Mas sabe o que me intriga.

— O quê?

— É que esse seu relógio é igualzinho ao meu.

— E daí?

— Daí que me veio um pensamento aqui.

— Qual?

— Por acaso você saiu com o Júlio?

— Tá doida?

— Por que estaria?

— Não suporto homem que usa perfume barato.

Analice, ainda não convencida, instigou a amiga.

— Então, Judite, quem te deu o relógio?

— Ninguém.

— Como assim?

— Ué, como assim o quê?

— Hum… Então, você o comprou?

— Tá maluca, mulher? Você sabe quanto custa um relógio desses?

— Hum… Não, mas deve ser bem caro.

— Uma fortuna! Mais de cinco mil.

— Tudo isso?

— Sim.

— E como foi que você o conseguiu?

— Ah, isso foi fácil.

— Como assim?

— Eu o roubei.

— Roubou?

— Sim. Aproveitei que ninguém estava vendo, e o meti dentro da sacola e saí da loja.

— Hum! Pelo menos, o meu foi um presente e não fruto de um crime.

— E qual a diferença?

— Qual a diferença? Ah, tem muita diferença!

— Tem nada!

— Tem sim! E muita!

— O relógio não tá aí?

— Hum!

— E não é igualzinho ao seu?

— Hum!

— Então?

— Mas você cometeu um crime!

— Amiga, deixa de bobagem! Apenas utilizei outro método de aquisição. E a propósito…

— O quê?

— Que tal o café?

…………………………….

Eduardo Martínez é autor do livro 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’

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