Vale Tudo
Assim como na novela, o remake na política é melhor

As novelas originais da Rede Globo de Televisão já foram do tipo chiclete, algo como febre nacional. Por muitas décadas, a fábrica de teledramaturgia da emissora não teve parelha. Com produção de longas metragens, as novelas da Vênus Platinada paravam o país e garantiam o topo do ibope nos horários da 6, das 7, das 9 e, quando tinha, das dez. O tempo passou, o povo mudou, o telespectador se cansou e a expressão já foram virou já eram.
Os dramalhões de meses a fio deram lugar às maracutaias contemporâneas, os folhetins minguaram, os astros envelheceram e a TV Globo não acompanhou o mercado. Anos luz à frente das concorrentes nesse quesito, a Globo tem experimentado fracassos retumbantes no horário nobre. Por isso, a direção exigiu e o comando da área específica decidiu investir em remakes e em reprises vespertinas.
Ainda que enlatadas, as obras prontas vêm garantindo o faturamento, a permanência do público, consequentemente a liderança nos horários mais disputados das televisões. É o caso de Vale Tudo, reescrita por Manuela Dias e com um elenco de fazer chover estrelado. Originalmente de autoria de Aguinaldo Silva e exibida em 1988, a novela reestreia nesta segunda (31) à noite. A ordem é repetir a média de 61 pontos no Ibope da época. É esperar para conferir.
Com a vilã Odete Roitman liderando a tropa, tudo indica que o sucesso do novo Vale Tudo são favas contadas. Se a ideia é não deixar o gênero morrer, até agora a estratégia é exitosa. Tão exitosa que a maioria das concorrentes vem seguindo a Globo nesse filão de apostar em histórias já contadas. Atualíssimo como o tema da trama (vale a pena ser honesto no Brasil?), o quadro político do país nos remete facilmente a uma analogia com a próxima eleição presidencial. Um presidente da República não pode ser considerado um ídolo do entretenimento.
Já tivemos um paramentado de mito e o país quase foi pelo ralo. O que aí está não tem cara de astro, mas lembra um artista quando resolve falar sem script negociado antecipadamente. Entre atores sem palco e coadjuvantes sem nome, minha preferência é por aquele cuja produção não tem encantado as massas, mas, pelo menos, não engana o público vendendo formatos de Hollywood e governando como se estivesse na Ameríndia. Portanto, assim como nas novelas, hoje eu prefiro a garantia das obras prontas. Elas podem dividir opiniões, mas nunca dividirão o povo brasileiro.
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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras
