Entrevista/Júlio César Rodrigues
De advogado, escritor e louco, todo mundo, pra variar, tem um pouco

Já imaginou cara que não lê e que, pior ainda, não escreve? Pois esse é o Júlio César Rodrigues, Isso até que, aos 15 anos, por uma dessas gratas surpresas do destino viveu lendo, lendo, lendo e escrevendo, também em triplo, o que até então não fazia. Tanto fez, que virou joralista e logo depois um dos advogados mais respeitados de sua cidade, no Paraná.
Para os amigos, é simplesmente, Juninho. E ele explica o apelido – seus pouco mais de 1m60. Quer saber mais sobre esse gênio? Leia a entrevista a seguir.
Fale um pouco sobre você, seu nome (se quiser, pode falar apenas o artístico), onde nasceu, onde mora, sobre sua trajetória como escritor.
Meu nome é Júlio Cesar Rodrigues, mas desde criança me chamam de Julinho. Justificadamente, porque não cresci muito, no máximo um e sessenta e dois, se bem medidos. Nasci e fui criado em Arapongas-PR, terra de Tony Ramos e onde ainda resido, depois de ter passado por Maringá, durante o período da faculdade, e Londrina, onde advoguei e lecionei Direito.
Como a escrita surgiu na sua vida?
Eu não tinha o hábito de ler e escrever na infância e na adolescência. Até que, aos 15 anos de idade, fui convocado por meu pai, que andava muito ocupado como advogado, para substituir o redator-chefe da Revista da Cidade, editada em Arapongas. A revista foi fundada por ele há mais de 60 anos e até hoje continua com a família. De uma hora para outra fui obrigado a ler e, principalmente, a escrever. Na época, eu era um aluno mediano em português e redação. Tive que aprender na marra. Aos 17 anos, mudei para Maringá, onde ingressei na faculdade de Direito e consegui emprego de redator no jornal O Diário. Comecei como plantonista policial e dois anos depois virei editor de política. Aos 20 anos, fui chamado para trabalhar como repórter na emissora local da Rede Globo, onde fiquei um ano. Terminada a faculdade, voltei para Arapongas e fui advogar no escritório do meu pai, mas nunca abandonei o gosto pelo Jornalismo. De lá pra cá, a escrita virou hábito, profissão e prazer, seja em petições para o Judiciário ou em textos que publico na própria Revista da Cidade e em outros veículos, em especial no perfil @certascronicas, do Instagram.
De onde vem a inspiração para a construção dos seus textos?
O cotidiano é minha maior fonte. Quando desejo ou preciso escrever uma crônica, por exemplo, fico de soslaio em alguma rua, esquina ou praça buscando detalhes e motivos para uma boa história. Às vezes apenas olho pela janela de casa e surge uma ideia. Às vezes não vem à cabeça nada que justifique tomar o tempo de alguém. É hora então de narrar fatos que vivi no passado e que possam fazer o leitor rir ou refletir. Ou as duas coisas juntas.
Como a sua formação ou sua história de vida interferem no seu processo de escrita?
Não me considero escritor, quando muito um rabiscador de letras, como dizia Drummond. Mas a experiência no jornalismo foi fundamental para o meu crescimento como pessoa e como aprendiz de cronista. Como a crônica é um gênero livre, mesclando literatura e jornalismo, sinto-me confortável nela.
Quais são os seus livros favoritos?
Meus preferidos são os clássicos nacionais. O primeiro da lista é “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, pela genialidade da escrita, pela riqueza dos personagens e pela eterna dúvida deixada pelo autor. Outro que gosto muito é “Triste fim de Policarpo Quarema”, de Lima Barreto. Dos estrangeiros, sou fã de “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Márquez, e “O sol é para todos”, de Harper Lee.
Quais são os seus autores favoritos? Poderia citar também autores contemporâneos de destaque?
Machado de Assis é disparado o meu favorito, pela grandeza da obra, pela cultura presente em seus livros e principalmente pelo humor irônico. Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e José Saramago também entram na galeria de destaque. Atualmente sou fã declarado das crônicas de Ruy Castro e Luis Fernando Veríssimo e tenho admirado o estilo inovador da romancista Vanessa Brunt e a cultura extraordinária de Yuval Noah Harari. Aqui do Notibras, gosto demais dos contos do Eduardo Martínez.
O que é mais importante no seu processo de escrita? A inspiração ou a concentração? Precisa esperar pela inspiração chegar ou a escrita é um hábito constante?
Eu acabo escrevendo todos os dias, seja no trabalho de advogado, seja na preparação de uma crônica para o meu Instagram. No trabalho, o que conta mais é a concentração, o estudo do caso jurídico que está na mesa. Na preparação da crônica, preciso primeiro da inspiração. Depois que ela vem, o texto sai.
Qual é o tema mais presente nos seus escritos? E por que você escolheu esse assunto?
Normalmente os textos denunciam meus defeitos e fraquezas e com alguma pitada de humor. Conto histórias que vivi e invento outras que desejaria ter vivido – ou não. Falo dos meus pais, da família, do Alfredo (meu cachorro), do trabalho e da infância. Às vezes busco que as palavras induzam o leitor a alguma reflexão sobre a vida, o tempo dela e o amor. Procuro escrever com leveza para não machucar ninguém, mas sem perder a
firmeza.
Para você, qual é o objetivo da literatura?
A literatura emociona, diverte e faz pensar. Sobretudo nesta era de telas digitais, que vamos passando rapidamente com os dedos, a leitura de um clássico, por exemplo, é bálsamo para a alma. Além de trazer conhecimento e cultura, a literatura é remédio para a ansiedade dos tempos modernos.
Você está trabalhando em algum projeto neste momento?
Há pouco mais de um ano criei o perfil @certascronicas no Instagram. É um espaço dedicado a textos com leveza, humor e reflexão. Toda quinta-feira publico uma crônica inédita. Com frequência também divulgo textos de convidados especiais. Até o imortal Ruy Castro já participou do nosso quadro “Certo Convidado”. A página tem mais de três mil seguidores extremamente engajados. O desejo é em breve preparar uma coletânea para virar livro.
Como você espera que os leitores recebam seus escritos?
Espero que ao fim da última linha eles concluam que valeu a pena ter lido, que não tomei seus tempos em vão. Procuro narrar histórias, reais ou fictícias, que transmitam alguma mensagem positiva, seja de humor ou de reflexão para a vida. Desejo, sobretudo, que o leitor se identifique com a história, como se ela fosse sua.
Como é ser escritor hoje em dia?
Como disse antes, não me considero escritor. Talvez eu seja, na verdade, um impostor. Mas os amigos contam que não é fácil ser escritor em tempos tão difíceis…
Qual a sua avalição sobre o Café Literário do Notibras?
O espaço é inovador e extremamente agradável. Os textos normalmente vêm acompanhados de ilustrações divertidas ou reveladoras das histórias. Trata-se de um importante canal para escritores não conhecidos do grande público. Como na arte ou no futebol, há tanta gente com talento por aí, mas poucos têm a sua chance. Estou aproveitando a minha.
Tem alguma coisa que eu não perguntei e você gostaria de falar?
Apenas muito obrigado pela oportunidade de estar aqui.
