Retirei-me para uma bela fazenda, onde o visual de casas azul e branco, com janelas e portas de tábuas me remeteu à época de saudades.
Sim. Tempo de bisavós que ainda viveram a cantata dos carros de boi tocados com guia com guizos, levando para o vilarejo os grãos que abasteceriam as mercearias.
Fazenda que perde de vista as terras, outrora cultivadas e, de pastos, que hoje são loteadas para férias de gente da cidade que odeia mosquito.
Quartos amplos, tábua corrida no chão que range ao pisar, e que receberam ar refrigerado para a comodidade dos hóspedes.
Parede onde uma grande tela de TV substitui os quadros de pintura a óleo, normalmente retratando de paisagem de casebres às margens de rios ou buquê de flores costumadas a enfeitar as varandas.
E pensar, que alguns hóspedes reclamam da ausência de internet, e preferem uma série da Netflix ao olhar para o céu estrelado ou conhecer os últimos vaga-lumes da terra.
A pobre fazenda está morrendo por falta de passado.
Ao desbravar a fazenda, encontrei num canto, toda enferrujada e suja, uma charrete. Insisti por um passeio. O que exigiu tempo de preparo e de procura por um cavalo.
Fui apresentada ao Trovão. Lindo, malhado: marrom e branco, mas sem experiência como puxar charrete.
Devo confessar que durante o passeio pelo chão de terra, tive receio pela resistência das rodas, e principalmente da reação de Trovão que muitas vezes virou a cabeça em nossa direção, impedido de nos ver pelos antolhos, e mostrando sua baba de cansaço.
Confesso que fiquei com dó do bichinho e me arrependi de abusar dele.
Não sei se Trovão é herdeiro de charreteiros antepassados. O que percebi é que deve ter sido a sua primeira vez.
O passeio foi breve, percorrendo as trilhas da mata nas terras da fazenda, apreciando as montanhas, o vale, os pequenos cultivos arrendados e, a sensação de que mesmo que se queira reviver o passado, o presente não permite.
Carros estacionados nas trilhas, materiais de construção empilhados pela estradinha, porteira eletrônica.
Difícil.
Ao voltar, assisti o alimentar peixes.
Pense! Ração. Jogada por baldes para engordar as pobres tilápias cultivadas em tanques com cara de lago.
Todavia, pude conhecer o grande lago, onde a natureza permite a sobrevivência de peixes banhados pelas águas de rios que descem da serra.
O silêncio, o sol forte durante o dia, os bandos de pássaros e, os solitários, as altas copas das árvores, a cachoeira que nunca descansa e embalava o sono durante a noite, o chão de estrelas invertido, e a saudade de quem teve histórias contadas por seus avós.
Marcaram meus momentos.
Agradecendo ao Google Maps a possibilidade de chegar a um lugar do passado.