Lembranças de 1973
Drama da prova, ciúme da amiga, show e por fim… faculdade das continhas

Os que me conhecem hoje nem imaginam os perrengues que passei. Pobreza em qualquer fase da via é algo que aflige os acometidos, mas, na adolescência, parece que é uma topada do dedo mindinho em qualquer quina traiçoeira. Enquanto a dor lancinante se apodera até da alma, as lágrimas escorrem pelo rosto cheio de espinhas, e os inevitáveis palavrões são expelidos pelos lábios desajuizados.
— Calma, minha filha, que a vida é mesmo assim.
Essa era a minha mãe me pedindo calma. Calma? Como é que alguém pode pedir calma quando você está prestes a tomar bomba na escola, e o coração não para de palpitar pelo garoto mais gato da rua, justamente o namorado da sua melhor amiga? É verdade que, apesar de atolada em problemas, havia um mais urgente: a minha banda favorita iria se apresentar naquela semana. Afinal, com que roupa eu iria ao show dos Secos & Molhados?
Enquanto tentava decifrar os enigmas da matemática, meu cérebro também matutava sobre como parecer descolada diante dos meus ídolos. O ideal seria uma regata branca, calça jeans e um All Star. Gente, quanta grana que não tinha naquele tempo!
Se descobri que a raiz quadrada de 169 era 13, meu pensamento iluminou para novas ideias. Pois é, não tinha regata, então, cortei uma camiseta branca e costurei. Lá estava a minha regata, que me pareceu quase original diante da minha miopia. Calça jeans, nem pensar. Era uma fortuna, e nem a completa insensatez adolescente teria a cara de pau de pedir uma para minha mãe, que ralava demais para colocar o básico na mesa lá de casa.
Por sorte de desesperada, a Joana, justamente a minha melhor amiga, que andava a tiracolo com o Henrique, o tal bonitão da rua, me emprestou uma calça de brim azul. Maravilha! Só faltava o All Star, que sabia que não iria rolar. Já conformada com meu Conga, eis que vi na lixeira um par de Bamba, que era a versão tupiniquim do famoso tênis estadunidense.
O show aconteceu no domingo, finalzinho de tarde, e lá estávamos Joana, Henrique e eu misturados à multidão. Inebriados pelas canções, por toda aquela atmosfera transgressora, dançamos, pulamos, cantamos, gritamos. Inesquecível, ainda mais porque foi quando rolou meu primeiro beijo na boca.
Mas não pense você que foi com Henrique, que não desgrudava da minha amiga. Foi com um colega da escola, o Marcos, que nem era tão lindo assim. Todavia, o menino era dono de lábios carnudos, verdadeiro convite praticamente irrecusável. E como o danado sabia beijar! Nossa, foi por pouco que não ultrapassamos o limite.
No dia seguinte, morta de cansaço, mas satisfeita pelo ocorrido na véspera, eu sentada na carteira mais ao fundo diante de uma quantidade infindável de números. A cabeça, quase toda voltada para o trio mais maneiro de 1973, por milagre, conseguiu funcionar para resolver por completo a prova. De tão inacreditável era a situação, que Jorge, o professor, me parabenizou pelo dez.
— Jaqueline, não é que você conseguiu passar?
— Que maravilha, professor!
— Agora você já vai poder receber o presente do Papai Noel.
Há muito não acreditava em Papai Noel, mas foi bom ouvir aquilo do meu mestre. Soube recentemente que ele foi fazer companhia a Pitágoras, Gauss e outros tantos gênios das exatas. Até hoje não tenho dúvida de que foi o professor Jorge que me levou a decidir fazer Faculdade de Matemática.
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Eduardo Martínez é autor do livro 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’
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