Sidônio tenta fazer mágica
Governo corre atrás do prejuízo para tentar salvar alguma coisa

O fracasso da manifestação bolsonarista em Copacabana chegou como um alívio para Lula. Mas nem deu tempo de degustar a boa fase, porque uma nova rodada da pesquisa PoderData confirmou que a sangria do governo ainda não chegou ao fim, com 44% dos eleitores considerando o governo Lula pior que o de Bolsonaro. Mesmo assim, na opinião de Marcos Gonçalves, não é possível dizer que os dados apontem tendências estruturais e ainda haveria tempo para reverter o quadro atual.
A chave para isso é bem conhecida e parece consensual no Planalto: fazer com que a política econômica melhore a vida dos mais pobres. O caminho está certo, avalia Maria Hermínia Tavares, mas não se sabe ainda se medidas como o Pé de Meia, crédito consignado para trabalhadores e Vale Gás surtirão o efeito esperado. Além disso, não se vislumbra nada tão ousado como um Bolsa Família, um PAC ou um Minha Casa Minha Vida que marcaram os governos petistas do passado.
Pode-se esperar, no máximo, um engorde do Programa Minha Casa Minha Vida, sem superar a lógica da pulverização de iniciativas. Aliás, a falta de uma identidade contribui para desmobilizar as bases de apoio do terceiro mandato de Lula. O que estimula o ministro da Comunicação Social, Sidônio Pereira, a encontrar uma solução mágica para atrair jovens, evangélicos e empreendedores, agregando as atuais políticas públicas sob um slogan chamado Prospera Brasil.
Porém, a aposta mais promissora é mesmo a reforma do Imposto de Renda, o que também ajudaria a recuperar a desgastada imagem de Fernando Haddad. A vantagem da proposta é que ela não implicaria em aumento da carga tributária, esvaziando o surrado argumento do mercado para se opor, além de ter caráter progressivo, prevendo a sobretaxação dos 141 mil contribuintes mais ricos – com renda superior a R$50 mil mensais – para isentar os 10 milhões mais pobres – que ganham menos de R$5 mil ao mês.
Só falta combinar
O plano de Lula seria perfeito se não dependesse do mercado e do centrão. A persistência da inflação em alta num contexto de juros elevados coloca o governo numa sinuca de bico. Afinal, é a primeira vez que Lula tem maioria de indicados na diretoria do Banco Central, além do próprio presidente do Banco, Gabriel Galípolo. E, no entanto, nada disso evitou que o Copom votasse por consenso um novo aumento da taxa Selic, que chegou a 14,25%, o mesmo patamar de 10 anos atrás.
Depois disso, ainda é possível imaginar que Galípolo possa inverter a linha ascendente? Ou a batalha dos juros já foi dada como perdida? Por enquanto, a atuação do novo presidente do Bacen só prova que quem controla a instituição continua sendo a Faria Lima. A situação econômica tende a se agravar também porque não há sinais de que Trump pretenda revogar a sobretaxação sobre o aço e o alumínio brasileiro, o que nas projeções da OCDE pode prejudicar o crescimento do país.
As outras dificuldades para implementar a agenda do Planalto estão dentro do Congresso. É verdade que a nova ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, fez bem o dever de casa e pavimentou os caminhos no Congresso para que a reforma do Imposto de Renda saia do papel. Mas a base aliada ainda espera acenos concretos por parte do governo, leia-se ministérios. Até lá, o que sobra para negociar é o varejo da liberação de emendas paradas e das indicações às presidências de Comissões na Câmara, cujos impasses começam a serem resolvidos. Com isso, a votação da Lei Orçamentária de 2025 foi destravada e o ano financeiro no setor público de fato começa.
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O Boletim O Ponto é produzido por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile para o MST
