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A afilhada

Hamilton, caseiro, casou; César, amante de ruivas, foi morar no fundo do lago

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Foto Produção de Francisco Filipino

César e Hamilton eram amigos de longa data. Amigos mesmo, daqueles que conhecem as histórias mais escabrosas um do outro, não raro tendo ambos nos papéis principais. Estudaram juntos, sempre nas mesmas turmas, desde os doze anos, e chegaram quase simultaneamente à maioridade, pois faziam aniversário com semanas de diferença.

Desde que a dupla começara a se interessar seriamente por meninas, César confessara sua preferência a Hamilton:

− Eu gosto mesmo é das ruivas. Quanto mais enferrujadinhas, melhor. Gosto das sardas, do cabelo de cobre encaracolado, da pele branca e dos olhos quase sempre muito claros. Ruiva natural, que por aqui nem é tanto raridade.

Para deleite de César, a colonização da região onde moravam proporcionara, em várias famílias, o surgimento de cabeças vermelhas que apareciam em várias gerações.

Hamilton também era namorador, mas um romântico. E não tinha qualquer fixação específica. Ao fim da adolescência e início da fase adulta, tivera algumas pretendentes, mas acabou demorando um pouco a decidir se casar, o que fez apenas quando conheceu Sabrine, o amor de sua vida. Fatalmente linda, de antiga e proeminente família local.

César, avesso a relacionamentos, preferia continuar cobiçando as ruivas. Nunca conheceram-lhe uma namorada firme e a ninguém escondia sua preferência por cabelos acobreados. Depois, manifestou uma faceta bem cafajeste, e confessou ao amigo:

− Ansioso por conhecer minha próxima ruiva.

− Por que você não procura uma para casar?

− Casar? Jamais! Não pretendo me apegar a ninguém. Escolher uma ruiva significa abrir mão de todas as outras. E tem mais: se eu preferir uma só, ela envelhece. E mulher que envelhece, envilece.

− Que coisa abjeta para se dizer, César!

− É o que penso. Prefiro estar livre para conquistar as ruivas. Basta chegar à maioridade para me despertar interesse.

César e Hamilton cresciam e conquistavam expressão social na comunidade local. Eram muito trabalhadores e empreenderam, tornando-se ricos. Hamilton realizava-se na vida em família. César, namorando ruivas, mas nunca por muito tempo. E continuaram amigos.

Quando estavam para casar, Hamilton e Sabrine discordaram sobre a escolha de César para ser um dos padrinhos.

− Ele nem é casado! Reclamava Sabrine. Além disso, eu sei de certas histórias…

− Não tem nada a ver, meu amor. Ele sempre foi meu melhor amigo.

− Se é assim, ele entenderá. Essa é minha palavra final, Hamilton. Não simpatizo com ele e não o quero na lista dos padrinhos. Se ele é seu melhor amigo, é só conversar. Põe a recusa na minha conta.

Foi o primeiro desentendimento do casal. E, por anos a fio, seria o único.

Mas César foi compreensivo quando, cheio de dedos, o amigo foi comunicar-lhe da irredutibilidade da noiva. Disse que a amizade entre os dois era muito mais que a posição de padrinho, e ficava tudo como sempre fora.

Após o casamento, conforme passavam os anos, Sabrine acabou tolerando e, por fim, aceitando a presença de César na vida do casal. Mesmo porque a amizade entre ambos era genuína e fraterna, e César jamais foi invasivo ou desagradável na convivência.

Enquanto César seguia na sua solteirice povoada de ruivas, Hamilton e Sabrine acabaram sendo visitados pela cegonha no quinto ano do casamento.

Nasceu-lhes uma menina, que ganhou o nome de Gabriela. Branquinha e careca, linda como ela só.

Foi sem qualquer resistência que Sabrine aceitou a proposta de que César fosse o padrinho. No fundo, o episódio da recusa na época do casamento causara-lhe certo remorso. Concluiu, afinal, que César não era mau, dando por encerradas as antigas reservas contra o moço. Assim, deu-se o batizado. Seguido de muita festa e união entre os amigos.

Gabriela cresceu e, aos três anos, manifestando remoto atavismo familiar materno, já ostentava lindos cachos ruivos. E sardas no nariz.

O dindo era só amores pela afilhada.

Secretamente, Hamilton provocava:

− Aí está, seu vagabundo, a única ruiva que você respeita. Ela fará parte de sua vida e você nunca a irá decepcionar.

E riam-se os amigos.

Aos dez anos, Gabriela ganhou um irmãozinho, Lucas, que cresceu tão ruivo quanto ela.

Aos doze anos, matriculou-se numa escolinha de futebol, desenvolvendo-se a sério no esporte, sob os auspícios e torcida do padrinho, seu mais sincero fã.

Aos quinze, Hamilton e César valsaram com ela, numa festa de debutante que entrou para a história da cidade.

Aos dezessete, concluiu brilhantemente o ensino médio, e ganhou bolsa integral para concorrido curso universitário na capital.

Os pais ficaram atônitos e preocupados. Largar assim, na cidade grande, uma menina tão nova, do interior, para morar longe da família? Uma temeridade!

Até que César chegou com a solução:

− Eu me mudo com a Gabi e tomo conta dela!

− Como assim?

− Ora, eu tenho uma empresa na capital à qual preciso dar uma atenção especial. Estava pensando em me mudar para lá de vez. Gabi muda comigo e eu tomo conta dela. Ela é responsável, educada, não me dará trabalho. Além disso, vai passar mais tempo na universidade do que em casa, porque o curso é integral. Vai dar tudo certo. Você e Sabrine ficam aqui com o Lucas. Sua mulher é professora municipal, não pode deixar a cidade… E não se preocupem com gastos, é minha afilhada, eu banco tudo.

À noitinha, no leito, Hamilton e Sabrine confabulavam sobre as possibilidades. A proposta do amigo era boa. Gabi adorava o dindo. Desperdiçar a chance com bolsa integral na universidade mais importante da região era impensável. O potencial da menina se desenvolver era enorme. César, afinal, haveria de cuidá-la bem.

No dia seguinte, na hora do almoço, Hamilton ligou para o amigo dizendo que Sabrine e ele haviam aceitado a sugestão, pedindo-lhe, no entanto, que o amigo e compadre fosse até o sítio dos seus sogros, porque tinha um assunto grave a tratar e um pedido a fazer. No entanto, que mantivesse o mais absoluto segredo, e que fosse só.

Foi no final da mesma tarde que a picape de César chegou à porteira do sítio, distante alguns quilômetros da cidade, vazio desde que os pais de Sabrine, já idosos, foram morar no centro. O compadre viera curioso, mas sem nenhuma preocupação. Hamilton, iluminado pelos faróis do veículo, já se encontrava lá e abriu o portão de madeira, dizendo para o amigo de tantos anos:

− Vai ali e estaciona perto do açude, preciso te mostrar uma coisa que guardei no barracão.

Os dois penetraram no velho recinto, em meio a máquinas agrícolas desativadas. Ligando a lanterna do celular para iluminar o breu que caíra, César perguntou:

− Afinal, o que está acontecendo de tão grave para todo esse mistério, irmão?

Quase instantaneamente, sem nada dizer, Hamilton atingiu fortemente a cabeça de César com uma pesada ferramenta. O compadre desabou no chão e, antes que conseguisse pensar, pois caíra contundido, mas consciente, sentiu um objeto pontiagudo penetrando-lhe o flanco esquerdo, reagindo com débil gemido.

Ficou ali, caído, sentindo a vida se esvair, a tempo de ouvir as derradeiras palavras de Hamilton:

− Da minha ruiva maior de idade cuido eu, seu espertinho. Dela você não chegará mais perto. Nunca mais, para não ter perigo.

Perto dali, uma ave noturna soltou um pio sinistro.

Em seguida, preso dentro da picape cheia de pedras na cabine, o corpo de César foi tragado pelas águas escuras do açude, onde, em segredo, ainda repousa.

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Daniel Marchi é autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente através do e-mail danielmarchiadv@gmail.com

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