Cerimônia da partida
Kau, a estrela de nêutrons gerada na terra, seguiu viagem para o espaço sideral

Estrelas são corpos celestes capazes de atrair e manter outros corpos celestes ao seu redor. São tão massivos que, com sua gravidade, podem fundir moléculas, gerando uma quantidade incrível de energia nuclear. Durante toda sua vida, elas transformam moléculas em algo novo, e também acabam transformando a si mesmas, neste processo.
Algumas pessoas também são assim. Elas nos fazem enxergar como a vida pode ser incrível, ou ao menos tragável. Olhar para as estrelas faz a vida valer a pena. E é diante de uma estrela que estamos hoje.
Kau Dalfovo Marquez, 30 anos, natural de Rio do Sul. Pesquisadora, Graduada em Física pelo IFC, fez desde a Pós-graduação até o Pós-Doutorado na UFSC, fez o segundo Pós- Doutorado em Coimbra, e estava cursando outro Pós-Doutorado pelo ITA.
Mas, nos deixou rumo ao espaço sideral.
Deixa a mãe Sionara, sua maior apoiadora, o pai Jair, a irmã Júlia, sua confidente, a avó Teresinha. Também a professora Débora, que além de apoio acadêmico e profissional, era uma amiga. Deixa os gatos Capitu e Escobar, por quem tinha um imenso carinho.
Calma, só se revelava para os mais próximos. Era otimista, bem humorada, brincalhona, mas também concentrada e muito, muito organizada! Dona de um humor inglês, para ela, todo trabalho intelectual parecia fácil.
Publicou muitos artigos e um livro, o primeiro em português sobre o assunto, utilizado inclusive academicamente. Tinha afeição por temas profundos, como política, filosofia, psicologia. Era reflexiva, dominava a escrita, e o fazia de forma impecável. Pensava fora da caixa, tudo que fazia exalava exclusividade, perfeição.
Há um ano, seu amadurecimento e compreensão de si mesma permitiu entender-se e assumir-se trans. A liberdade e a leveza trouxeram-lhe um melhor viver. Algo grandioso estava acontecendo! Algo que tivemos o prazer de testemunhar.
Ela era uma estrela! Uma estrela supermassiva, que mantém sistemas planetários inteiros em órbita, ao redor de si, por mais distantes que estejam, através do seu campo gravitacional. Da mesma forma, fomos atraídos e, mesmo fisicamente longe em alguns momentos, continuávamos de algum modo ligados a ela.
Essa estrela supermassiva transformou-se no decorrer de sua história, fazendo seu próprio caminho. Quando há escassez de um elemento, ela encontra outra forma de continuar existindo. É nesse momento que ela se transforma, e se expande, levando seu calor e influência para uma área ainda maior. É no fim de sua vida que isso acontece. Assim como a Kau, que há um ano, assumiu sua identidade, expandindo sua consciência e transformando sua relação com o mundo e a vida.
E após essa expansão, ocorre uma das maiores liberações de energia do cosmos: uma supernova. É uma explosão que irradia os elementos da estrela para fora de si, como a Kau fez, expressando-se, experimentando a vida, iluminando ainda mais pessoas com toda a sua luz.
Depois dessa explosão, o núcleo de nêutrons se aglutina em uma pequena área, para transformar a grande estrela em uma estrela de nêutrons, densa, cuja massa faz até o tempo e a luz se distorcerem. A estrela de nêutrons é o que fica após a queima total de alguns elementos da estrela. Diante de nós agora, está a nossa estrela de nêutrons, as cinzas de uma estrela, nos aglutinando, nos aproximando a ponto de não haver mais nenhum espaço entre nós.
Nossa estrela não deixará de existir. Apenas assumirá uma nova forma. Não a veremos mais, mas ainda receberemos sua energia pulsando através do cosmo, chegando até nós, através das lembranças que guardamos com carinho, dos momentos que vivemos ao seu lado. Ela não deixará de existir, pois as pessoas vivem em nossos afetos, e não apenas no corpo físico. A partir de hoje, conheceremos um elemento que supera as limitações do tempo e espaço, e nos liga a pessoas física e temporalmente inacessíveis. É tempo de descobrir o amor, e o seu poder de nos perpetuar, através dos afetos que cultivamos.
Kau, é na tua companhia que estão nossas melhores memórias. Se hoje choramos o fato de não podermos mais escrever novas histórias, amanhã sorriremos para a parte de você que está viva dentro de nós. Pois seria injusto lembrar de você de outra forma, que não fosse alegre, leve e feliz.
Se somos poeira das estrelas, então temos também um pouco de você em nós. Nos despedimos hoje daquilo que simboliza o seu corpo. Queríamos te dizer isso em presença, mas ainda agora, faremos nossas as palavras de Carl Seagan, quando disse à sua esposa a célebre frase:
“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você”.
Kau, muito obrigado pela companhia!
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Jessé Simão é Celebrante Social- (48) 988082197
