Nômades
Mambembes tropeçam, levantam e seguem levando alegria ao povo

Os errantes, os fugazes viajantes
buscando sempre a vibração perdida
Todos os dias caem da árvore da memória
onde brilha o nome, o melancólico ansiado barco,
o sol desbotado
refletido na menina do olho marejado
Oh! que percurso essencial descrevem os errantes
em sua busca em queda livre, abismados
sobre o arame, com fome e vidrados
compondo a arriscada síntese do exílio
E tu, vontade insatisfeita
onde encontrarás os frutos
da árvore do querer
as alegrias do estar e do ser
que nos rompem a alma de tanto ansiar?
A rosa branca do olhar
que na procura a tudo reverdece
a todo o instante aquece e esquece
o som da queda e escuta
só o tilintar da sorte
no inventado pó de serra do picadeiro
O bolso vazio da esperança nos empurra
e estanca num breve riso tal furtivo afago
ilusão de cão, encanta
mas a vida logo nos arranca o curativo
nos retira o tapete mágico do sono eterno
e nos remete para a nossa condição
de feridos nas asas e nas almas
Seguimos assim, artistas de picadeiro
num instante congelados
doloroso martírio de prosseguir
sem pés, estrada ou caminhão
eternos estrangeiros desterritorializados
peregrinos de desamparos circunstanciais
Seres nômades/vagantes sempre a ousar
e a se espatifar
Não, não há razão para calafrios:
no fim estará sempre o começo
Tropeço.
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Gilberto Motta, jornalista, professor, músico e escritor, nasceu num Circo Teatro mambembe dos pais e viveu a infância de cidade em cidade. Mora, hoje, na Guarda do Embaú SC.
