Curta nossa página
nlenfrdeitptrues


Dia de apostas

Mesmo pau que já deu em Chico agora começa a sentar pua em Francisco

Publicado

Autor/Imagem:
Mathuzalém Jr - Foto de Arquivo

Em qualquer lugar do mundo, inclusive nas republiquetas de mingau de maizena, golpe de Estado, liderança de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, danos contra o patrimônio público e deterioração do patrimônio tombado são crimes hediondos e passíveis de longas penas de reclusão. Em nações mais severas, menos populistas e nada personalistas, a punição pode ser ainda mais rigorosa. São esses os crimes imputados pela Procuradoria-Geral da República na denúncia apresentada ao Supremo Tribunal Federal contra o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.

Além de Bolsonaro, outras 33 pessoas estão citadas pela PGR, entre elas o ex-ministro Braga Netto e o ex-ajudante de ordens Mauro Cid. Todos começam a ser julgados nesta terça, 25, pelos cinco ministros que compõem a 1ª. Turma do STF. O presidente da Turma, ministro Cristiano Zanin reservou três sessões para deliberar sobre o futuro dos denunciados no processo da suposta trama golpista. Se a denúncia for aceita, será aberta uma ação penal e os envolvidos se tornam réus no tribunal. Daí até a prisão pode ser uma questão de dias, semanas e até meses. No caso em questão, nunca alguns ou muitos anos.

Apesar do volume de evidências, boa parte dos brasileiros avalia a peça da PGR como mais uma das imaginárias perseguições impostas ao líder do que há de pior no conservadorismo de direita, cuja ação mais nefasta foi o plano para impedir à força a posse de um presidente democraticamente eleito. De memória tão curta como seletiva e excludente, essa parcela de brasileiros talvez imagine a provável condenação de Bolsonaro como filme de ficção, algo do tipo lenda urbana. Não tenho prazer algum em afirmar que exagero seria não haver condenação do indivíduo que, além de propor a divisão do Brasil em pessoas boas e pessoas ruins, pensou em dar ao país rumos bem próximos da tirania.

Não é novidade a satanização do Poder Judiciário, particularmente do STF. Os bolsonaristas mais ou menos radicais estão cumprindo o papel deles no script desenhado pela defesa e pela cúpula dos seguidores do ex-presidente. A militância do PT fez a mesma coisa em 7 de abril de 2018, dois dias depois de o então juiz Sérgio Moro ter expedido ordem de prisão contra Luiz Inácio, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo do triplex do Guarujá. Embora o líder máximo do PT não tenha sido inocentado, a condenação foi anulada por presumida parcialidade de Moro. Todavia, Lula ficou preso por 580 dias e teve sua candidatura barrada nas eleições daquele ano.

Lula da Silva perdeu a liberdade. Por que Bolsonaro não pode perder? Ambos descumpriram as leis. Portanto, não há que se pensar em dois pesos e duas medidas. Como se diz na gíria jurídica, pau que dá em Chico também tem de dar em Francisco. Dirão os arautos da nobreza do czar do bolsonarismo que não houve golpe. É verdade. Não houve por falta de adesão do Comando Maior das Forças Armadas. Entretanto, basta uma esfregadinha na testa para lembrarmos que o abortado plano golpista incluía os assassinatos de Lula, do ministro Alexandre de Moraes e do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin. Assim como em 2018, não tenho nenhuma preocupação com o futuro da democracia brasileira.

A nação é maior do que tudo e todos. Independentemente de suas lamentáveis ações, da perda de popularidade e do direito temporário de ir e vir, Jair Bolsonaro permanecerá patriota como qualquer outro cidadão. Aliás, exatamente como ocorreu com Luiz Inácio. Solto mais adiante, ele poderá democraticamente voltar à condição de político livre. Exatamente como é Lula. Esperar é a grande diferença entre eles. Como sertanejo, um soube aguardar tempo bom. Como menino mimado, o outro preferiu reverter o fracasso de forma equivocada, raivosa e desproposital. Tomar na marra o brinquedinho que perdeu em uma disputa pública, honesta e inquestionável talvez lhe custe o cancelamento definitivo como homem público. No atacado e no varejo, é dia de apostas no Brasil. O martelo pesado da Justiça finalmente começa a ser batido na Casa de Noca e nas costas daqueles que morrerão como golpistas.

…………………….

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

+97
Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2024 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.