Anamnese Gate
O dia em que a galinha deixou os ovos de ouro numa encrenca federal

O caso era bom para entrar nos compêndios didáticos de psicopatologia… O cara era mitomaníaco: vivia as próprias mentiras e se alimentava delas. Sem licença poética, alguns disseram que ele obtinha prazer com elas e até se fartava delas… Com licença poética, vou dizer que talvez obstruísse a digestão delas a tal ponto de vivê-las corporalmente (não me peça que explique isso cientificamente) …
A mitomania sustentava a chacota, a irreverência, a falta de compromisso, a falta de decoro, a procrastinação maldosa e…
E tinha a paranoia: tudo o que acontecia de ruim para ele, atribuía a um determinado partido político.
E tinha o infantilismo, talvez devido a traumatismo craniano já que caíra nas pesquisas e batera com a cabeça num objeto que para efeitos deste chamaremos simplesmente Justiça.
Indagando se “ele não se aguenta? Ou não aguenta os outros? Ou os outros não o aguentam?” … Temos que haveria afirmativa para todas elas!
– Só recorrendo ao Analista de Bagé – lembrou-nos Eduardo M.
– Mas isso facilitaria o diagnóstico? – indagou uma leitora.
Então indaguemos sobre as possibilidades de medidas profiláticas pautadas no seu entorno…
Ah! Será que o ambiente o prejudicava? Então os “religiosos performers” montaram em seus “cavalos poluentes” para encenar algumas “Cruzadas” pró Seu Líder…
Imitaram Mussolini, primeiramente. Depois “sujaram” a memória daquele ditador.
– Essa história está começando a ficar fedida – pensou a leitora.
Depois os “religiosos performers” fizeram a encenação do atentado a facada num líder religioso durante um culto.
– Essa história cheira a merda recolhida – pensou o leitor.
– Esse paciente nunca vai reconhecer que “ninguém o aguenta” mais. – Segredou o jornalista Gilberto (Não espalha, só contei pra ti, “visse?”).
– Quais são suas fontes, Gilberto? – perguntei eu.
– A maior doença dele é não suportar os outros. Veja como ele trata jornalistas. – ponderou Gilberto M.
– Acho que os outros não o aguentam! Ele é um ser detestável. – disse o Braz R.
– Vejam bem que ele se internou com pompas dignas de Ricardo III. – explicou a atriz Anna Beatriz. Neurose histriônica, será?
– Diagnóstico se faz para fazer um plano terapêutico! – exclamou o Dr. Paim. Mas por enquanto só li elucubrações. Vocês são profissionais da área? Se não forem…
– Ah! Dr. Paim… Magoei! Achei que o senhor iria se interessar e incluir esse caso no seu compêndio de Psicopatologia.
– Por quê? – questionou Paim.
– Acontece que o paciente apresenta uma nova modalidade de fobia… Que não encontramos no seu compêndio, Dr. Paim… A cromofobia… especificamente a aversão ao vermelho.
– O que importa é que a cromofobia não comparece como distúrbio só de percepção ou de aceite de realidade… Atinge a área pensamento, instiga delírios – acrescentou a pesquisadora e ex aluna do Dr. Paim.
Talvez o caso não fosse tão bom para entrar nos compêndios didáticos de psicopatologia que descrevem as doenças do indivíduo na Modernidade… Em tempos Contemporâneos, parece-nos que na etiologia das doenças psíquicas sobressaem as causas exógenas em detrimento das endógenas. A pesquisar…
Foi necessário fazer uma assembleia multidisciplinar para discutir tal caso tão inusitado. Dentre outras, a contribuição da psicóloga O. O. L. foi excelente. Lembrou-nos como se dá a identificação de seus personagens complementares em tal jogo insano:
– São masoquistas que amam ficar à mercê de alguém.
E acrescentou que o personagem protagonista da anamnese não tem empatia pelo sofrimento alheio e acredita ser dono e salvador do mundo. Costumeiramente, faz relatos com informações vazias, só para confundir seus ouvintes. Quando é pego na mentira, enraivece e veste a máscara de vítima.
– O cara é um troglodita! – exclamou a antropóloga exaltada.
Melhor dar uma passadinha na história da democracia grega que excluía as mulheres da cidadania. – sugeriu a educadora.
O cara a diagnosticar dá ares de moralista, mas dá mares de loucuras… Foi bem-sucedido com sua mitomania: viveu as próprias mentiras e se alimentou delas…
Já seus eleitores não foram bem-sucedidos por viver e impor tais mentiras: muitos morreram de fome, de covid, de exaustão.
Lembra do aviso inicial veiculado pela autora? Era: “anamnese pronta, mas texto inacabado. Aguarde os próximos tópicos”.
Lembrou? Então reformule: “anamnese inconclusiva”.
– Querem me fazer crer que se trata de uma pessoa doente, “sem juízo e sem noção”? Mas o cara não é gente e sim um holograma, chegando perto se percebe que não tem conteúdo – disse o José em seu portal.
– Então era uma vez um falso cristão que elogiava o torturador e empunhava armas, andava de moto fascista e acolheu a nazista com uma mão, ao mesmo tempo em que, com a outra dava uma canetada para cortar verba de tratamento contra o câncer.
– Para tudo! – disse o editor. Era uma vez uma anamnese!
– Veja se assim fica melhor, editor… Era uma vez um ovo que botou a galinha dos ovos de ouro numa encrenca federal…
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Edna Domenica, colaboradora permanente do Café Literário, escreve eventualmente para outras editorias de Notibras
