Ossos do ofício
O pretendente a marido e a toalha de linho branco

Antigamente, eram os pais que tratavam o casamento para as filhas.
Muitas vezes, a moça via o rapaz só umas duas vezes, antes do casório.
Senhor Alfredo, fazendeiro próspero da região, tinha cinco filhas mulheres e, naquele tempo, era questão de honra casar as filhas. O homem já estava perdendo as esperanças, pois não encontrava rapazes à altura das suas cinco “princesas”.
Um certo dia, senhor Alfredo estava na cidade, comprando arame para consertar uma cerca, quando olhou para o funcionário do estabelecimento, achando-o um moço interessante para casar com Olivia, sua filha mais velha, que estava quase passando do ponto.
As moças, mesmo sem pretendentes, iam preparando o enxoval desde os doze anos de idade. Iam fazendo as peças, bordando e guardando dentro do baú.
Mal chegou da cidade, o patriarca contou a novidade.
— Senhora, minha esposa, no próximo sábado, teremos um almoço aqui em nossa residência, onde eu vou apresentar o pretendente para nossa Olivia.
Todos ficaram eufóricos, muito contentes e já foram preparando os doces.
Conversaram sobre o cardápio, pois era ocasião da maior importância.
— Olivia, você poderia emprestar aquela toalha de banquete, que você bordou no ano passado, pois as minhas toalhas já estão muito velhas e a ocasião merece uma toalha nova.
— Ah! Mamãe, logo a minha toalha de linho branco, que demorei tanto tempo para bordar?
— Não tem jeito, Olivia, vai ter de ser a sua toalha de linho branco. Ou você quer que eu coloque uma toalha toda remendada na mesa do almoço da apresentação do seu primeiro pretendente, ainda que ele é da cidade. Deve ser todo fino.
Olivia, muito contrariada, não teve jeito, aceitou.
O sábado tão esperado chegou. Todos levantaram, antes do sol surgir, para colocar as carnes para assar, preparar as saladas, enquanto Olivia foi colocar brasa no ferro para passar a tão amada toalha de linho branco.
Enquanto passava, pensava: “Espero que nada aconteça à minha toalha de estimação, passei seis meses bordando-a com muito amor e carinho. Não queria usá-la agora. Queria me vestir de branco no dia do meu casamento e, então, nós duas nos destacaríamos.
Na hora marcada, chegou o pretendente. Senhor Alfredo e os outros cinco filhos homens foram receber o moço na porteira da fazenda. As mulheres já estavam todas arrumadas, esperando dentro de casa.
Assim que o dono da propriedade adentrou no casarão, foram feitas as devidas apresentações.
— Fico muito feliz, senhorita Olivia, em firmar compromisso para o casamento em breve.
— Muito obrigada, seu Amauri. Peço aos céus que sejamos felizes.
Foi servido o almoço.
A toalha de linho branco, com um barrado de renda ao redor, se destacava mais que Olivia na beleza. Depois da oração, os serviçais foram enchendo a mesa com iguarias diversas. Todos começaram a comer com alegria.
Amauri, não sabendo o que fazer com os ossos já ruídos, começou a jogá-los debaixo da mesa, perto do seu pé. O almoço fluía animado. O quase noivo, pouco falava, pois sempre estava com um osso ocupando a boca.
Em determinado momento, os cachorros começaram a disputar os ossos, aos pés de Amauri e ferraram uma briga. Para piorar, todos os cães eram grandes e mordiam tudo em volta. O jovem, que não era muito acostumado com briga de cachorro grande, foi correr, a espora grudou na renda da toalha e ele foi arrastando tudo que tinha em cima da mesa.
Pobre Amauri, com a vergonha da confusão, saiu correndo, montou o cavalo e desapareceu na curva da estrada, com a toalha branca de linho, que esvoaçava ao vento. Olivia entrou em desespero. A garota começou a chorar alto, só gesticulando em direção à estrada.
— Calma, minha filha. Há de aparecer um outro pretendente. Calma! Você não vai ficar solteira.
— Papai, eu não estou chorando não é por causa do Amauri. Estou desesperada é que minha toalha de linho branco, com rendas que eu mesma fiz e bordei com tanto amor e carinho, foi embora com ele.
