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Fábula literária

Para distrair, vamos lembrar que no Inferno, para furar, já tem o buraco

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Prdução Editoria de Artes/IA

Autodidata em histórias da vida, não sou e nunca fui entendido, mas, como bom ouvinte, sou ótimo entendedor. Sou prático no entendimento do sujeito coisado e da sujeita coisando. Normalmente me distraio com o rumo da prosa, mas jamais perco a piada. Sempre fui assim com o bispo, com o padre, com a freira, com o pai de santo, o pastor, os “imbrocháveis”, os “patriotas”, os esquerdopatas e até com meu avô paterno, o velho Aristarco Pederneira, com quem ainda hoje mantenho conversas telepáticas, espirituais e espirituosas. Como esquecer alguém que me ensinou a tabuada, o abecedário e, principalmente, o beabá do amor, do sexo e do rock’n roll?

Aprendi com ele que o caminho mais curto para desconhecermos as portas do céu e do inferno é não estudar filosofia. Afinal, o que é o céu se não um suborno, e o que é o inferno se não uma ameaça. Eis a razão pela qual escolhi ser bacharel em inverossimilhanças, aquelas em que os próprios narradores não acreditam. Pragmático como ninguém, meu avô tinha como cartilha de cabeceira a tese de que até Deus tem um inferno, isto é, seu amor pelos homens. A outra máxima do velho tem a ver com a ausência no céu de pessoas alegres, interessantes e resolvidas.

Tudo bem que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou não? Quando a gente menos espera, as duas coisas acabam do mesmo jeito que começaram e ficam exatamente iguais. Ou seja, o melhor é não esperarmos nada de nada. Em outras palavras, a árvore que deseja alcançar os céus deve ter raízes tão profundas a ponto de tocar o inferno. Dizem os mais velhos que nem todo dia é dia de festa no céu. Aliás, para os religiosos de joelhos inchados a lenda de festa no céu é muito mais do que uma fábula literária. Para se chegar lá, é fundamental a reciprocidade entre o homem e Deus.

Nunca busquei respostas concretas, mas, como dizem aqui na terra, recíproco só o 69. O resto é mimimi. Me lembro bem de uma daquelas aulas de catecismo. Indicada pelo velho Aristarco Pederneira, a professora – uma freira de meia idade – perguntou à turma quem queria ir para o céu. Todos levantaram a mão, menos eu. Obviamente que a serva de Deus se dirigiu à minha “carteira” e, me comendo com os olhos, me pediu uma única razão para eu declinar do céu. Ignorante na matéria, respondi que adoraria, mas não podia porque minha saudosa mãe pediu para que fosse direto para casa depois das aulas.

Na verdade, o medo sobre as cores das portas do céu e do inferno era meu maior medo. Desisti de sonhar ao ser lembrado que a porta azul levava ao céu e a vermelha descia até o inferno. Uma e outra era somente uma questão de escolha. Em síntese, nada mais extraordinário do que uma festa no céu, evento ao qual, até prova em contrário, apenas animais com habilidade de voo e liberdade para picar são convidados. Um dos amigos de vovô tentou dar uma de penetra, se deu mal e por pouco não perdeu o restinho da honra que guardava para São Pedro. Metido a esperto, lá chegando obviamente que o dito cujo optou pela porta azul. Aí começa o calvário

Enquanto conversava com o guardião dos portões, ele ouviu uma gritaria e um barulho de berbequim atrás da porta azul. Indagando a respeito da balbúrdia, foi informado tratar-se do dia a dia do céu. Nada de especial. Era apenas uma alma que acabara de chegar passando pela obrigação do furo na cabeça e nas costas para colocação da auréola e de asas. Escandalizado, o velhinho anunciou em voz alta que, diante do que havia presenciado, não queria mais o céu. Perplexo, São Pedro se viu obrigado a alertar o senhorzinho de que, no inferno, o Diabo iria furar seu fiofó. A resposta calou todo o céu: “Quero lá saber! Pelo menos o buraco já está feito”. Como se vê, assim como na terra, no céu e no inferno tudo pode acontecer, inclusive se ajoelhar para rezar.

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*Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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