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Ao barro veio, no barro ficou

Tia Augusta e a história da família regada a gole de cachaça no leito da morte

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Produção Irene Araújo

Tia Augusta era porreta. Não que enfrentasse tudo de modo destemido, até porque sabia que as pancadas, quando pegavam em cheio, chegavam carregadas de dor. No entanto, não era de sublocar pendengas, mesmo as que lhe chegavam por conta de amizades duvidosas ou mal escolhidas.

Ela foi a primeira a chegar aqui, quando a nova capital do país não passava de um amontado de obras neste barro vermelho, que, há alguns dias, descobri ser por causa de tanta hematita. Após quase dois anos de muita luta, titia trouxe a mãe e a única irmã, que, naquela época, não passava de uma menina de oito anos.

Mesmo diante das dificuldades, aquele reencontro trouxe alento para aquelas três mulheres. Como aprendi com tia Augusta, quando a dor é dividida, o calvário é menor. E foi assim que elas sobreviveram, apesar dos despejos, apesar das agruras que se multiplicavam que nem bactérias, das promessas não cumpridas, das mentiras escancaradas, das mazelas agravadas a partir de 1964.

Olhando para trás, parece que tia Augusta não teve tempo de viver a própria vida. Preocupada com a manutenção da família, não me lembro de tê-la visto passar um batom ou um perfume. Se teve amores, nunca descobri. O certo é que fez o que foi possível para dar o conforto que vovó nunca tivera, assim como lutou que nem leoa para que minha mãe tivesse uma carreira.

— Cícera, você vai estudar. Não te quero ver buchuda com a barriga no tanque nem no fogão.

Mamãe, que sempre teve a irmã como segunda mãe, parece que seguiu os conselhos à risca. Estudou e foi a primeira da família a passar em um concurso público. Funcionária do Banco do Brasil, abriu um mundo de possibilidades diante de tantas precariedades até então. Chegou ao posto de gerente, mas jamais se esqueceu das suas origens, e fazia questão de que eu soubesse.

— Alice, lembre-se sempre de onde você veio.

Apesar de nunca ter passado por tamanha carestia, é como se aquilo tudo fizesse parte também da minha jornada. Mamãe tem razão, pois não podemos fugir da nossa história.

Há três meses, perdemos tia Augusta. Ela foi consumida pelo câncer de mama, que se espalhou. Mamãe e eu cuidamos da nossa parenta, que sempre olhou por todos nós. Mulher sábia, quando a morfina já não era suficiente para controlar a dor, não raro, me pedia uma dose de cachaça.

— Titia, mas a senhora tem certeza? O que o médico disse?

— Alice, Napoleão tinha uma frase ótima.

— Napoleão Bonaparte?

— Sim. Sabe o que ele falava?

— Não.

— Na vitória, você merece champanhe. Na derrota, você precisa dele.

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Eduardo Martínez é autor do livro 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’

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