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Fantasia e realidade

Vida longa a Francisco, ou a vaca vai literalmente para o brejo

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Texto e Imagem

Mais uma vez a vida imita a arte? Nas telas, o conclave ficcional para eleger um novo pontífice vem conquistando prêmios; na vida real, o mundo teme pela vida do Papa e prefere que esse ritual não aconteça tão cedo.

Como sabe o mundo, infelizmente a saúde do Papa Francisco se encontra em estado crítico. Para tristeza da comunidade católica e de todos que o admiram por sua postura corajosa e mensagens humanistas, as últimas notícias dão conta de que o papa mais progressista e ecumênico da História pode não estar mais entre nós muito em breve.

Como exemplo da visão renovadora e aberta do Papa Francisco, no início de 2025 o Vaticano anunciou mudanças históricas nas práticas da Igreja, tais como a nomeação de uma mulher para um cargo inédito de liderança e a aceitação de padres gays, desde que vivam em celibato, avanços que desafiam séculos de tradição e apontam para uma instituição em busca de adaptar-se às demandas de um mundo em constantes transfigurações.

A piora da saúde do argentino Jorge Bergóglio aponta inevitavelmente para as perguntas: quem será o novo chefe da Igreja e que linha de pensamento vai seguir? Dará continuidade à linha progressista e renovadora de Francisco ou haverá um retrocesso com a vitória de um papa conservador (ou mesmo ultraconservador) no próximo escrutínio?

Esse contexto, sempre muito tenso, coincide com o lançamento de uma película espetacular que é forte candidata a levar – com todo o merecimento – o Oscar de melhor filme no próximo dia 02 de março: “Conclave”.

O filme, cujo título se refere ao retiro sagrado no qual os cardeais eleitores invocam o Espírito Santo para proceder à eleição de um novo pontífice, foi produzido a partir de um roteiro do escritor Robert Harris, dirigido por Edward Berger e estrelado, entre outros, pelos excelentes Ralph Fiennes e Isabella Rossellini.

A película traz outra vez às telas as questões que envolvem a escolha de um novo papa pelo colegiado responsável por essa sempre delicada decisão após o falecimento ou renúncia do papa precedente.

A trama coloca o Cardeal Lawrence (Fiennes) como o condutor do processo eleitoral que ocorre entre os cardeais de diversos países, todos eles eleitores e, ao mesmo tempo, candidatos a se tornarem papa.

Nos bastidores, grupos, interesses e ideologias são identificados e mostrados, às vezes de forma explícita, outras de forma velada. Grosso modo, pode-se observar o duelo entre tradicionalistas e progressistas. No longa, do lado mais conservador encontra-se o cardeal Tedesco, que critica o abandono do Latim na missa. Já do lado liberal, há o cardeal Bellini, que defende pautas progressistas como a ordenação de mulheres.

Não obstante, também existem as interrogações e outros cardeais com perfis significativos que, mesmo não estando no centro do tabuleiro eleitoral da disputa, vão além da dualidade progressistas x conservadores e podem terminar ocupando o centro da trama, a exemplo do cardeal mexicano Benítez.

Benitez fora ordenado diretamente e em segredo pelo papa por atuar no Afeganistão e é apresentado como um homem que se preocupa genuinamente com a fé e com o sofrimento das pessoas, em contradição aos outros cardeais que depositam mais energia na disputa pelo poder.

Além disso, o singular cardeal mexicano tem um segredo que quase interrompeu a sua carreira eclesiástica, mas não convém aprofundar essa questão para não darmos um spoiler sobre a reviravolta da trama.

Voltando à História real, não conhecemos detalhes dos bastidores da eleição de Jorge Bergóglio, em 2013, mas pelo que sabemos acerca das resistências à sua linha de ação, é mais do que lícito supormos que ele enfrentou e derrotou a sempre forte concorrência de um ou mais nomes de linha conservadora regressista..

Daquela vez, prevaleceu a ala progressista. E na próxima, o que acontecerá? Qual será a linha predominante no conclave que se avizinha? Haverá algum caminho iluminado que novamente leve a um Francisco ou mesmo a um Inocêncio?

Por enquanto, só nos resta orar pela saúde de Francisco e para que o próximo conclave ainda demore a acontecer. E se e quando o inevitável ocorrer, que a vida imite a arte para o bem da Igreja e da humanidade.

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J. Emiliano Cruz, colaborador permanente do Café Literário, eventualmente escreve artigos para outras editorias de Notibras

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